| ADAPTANDO LIMA BARRETO PARA OS
QUADRINHOS Através de uma análise dura e objetiva dos
primeiros anos da República no Brasil, Lima Barreto descreve os
interesses mesquinhos de uma elite que se aproveita das novas
oportunidades criadas pela queda da Monarquia, dos costumes de uma
“alta sociedade suburbana” e do idealismo distorcido pelos ideais
positivistas impostos pelo novo regime.
O personagem que dá título a obra, Policarpo Quaresma, reflete todo
o ideário nacionalista e ufanista daqueles tempos. Como um legítimo
discípulo do Doutor Pangloss, ele acredita ter nascido no maior,
melhor e mais promissor país do mundo.
As lentes dos seus óculos nunca refletem a realidade objetiva nem
deixam que vejamos os seus olhos. Estes só aparecem quando ele é
capaz de enxergar a pequenez da alma humana, a mesquinhez dos
interesses políticos, o desinteresse dos “salvadores da pátria” pelo
futuro dos seus concidadãos.
Quando Policarpo percebe a realidade, seu comportamento é
considerado pelos outros como aberrante e ele é tratado como um
louco, tal qual um Quixote que consegue ver gigantes que ameaçam
seus valores de honra e dignidade onde o comum dos mortais é capaz
de enxergar apenas inofensivos moinhos.
Tomando como ambiente uma sociedade burguesa que busca ser inserida
num novo tipo de aristocracia republicana, Lima Barreto cria
personagens como o General Albernaz, o seu genro Genelício ou o
Dr.Armando Borges, que tentam ser aceitos através de casamentos,
pseudo demonstrações de intelectualidade e participações em guerras
nas quais nunca estiveram.
As pequeninas disputas políticas do município de Curuzu replicam em
seu microcosmo as disputas maiores travadas pelos antigos e novos
caciques da política, onde a fraude, a contribuição obrigatória para
os partidos, a manutenção do status quo travestido de renovação,
permanecem. Quase não há diferença entre o Tenente Antonino e o
Doutor Campos.
As mulheres da trama, apesar de uma participação constante,
apresentam o comportamento esteriotipado da época, à espera do
casamento, cuidando da casa, evitando intrometer-se nos assuntos
mais sérios. A exceção é Olga Coleoni, talvez por ser filha de um
imigrante, não tão submissa às regras limitadoras da sociedade
brasileira da época, quanto as suas compatriotas
As emoções dos personagens são contidas. Mesmo o seresteiro Ricardo
Coração dos Outros, cria seus versos de uma maneira automática,
distante. As letras das modinhas não têm que significar nada, têm
apenas que encaixar seus versos na estrutura melódica do violão.
Apenas no final do romance estes personagens demonstram um pouco das
suas verdadeiras emoções, buscam uma atitude individual em prol do
próximo. Percebendo, no entanto, que são minoria diante de um regime
que se consolidou como uma sombria e tenebrosa ditadura.
Triste Fim de Policarpo Quaresma é uma obra de difícil transposição
para a narrativa visual devido a grande parte do seu conteúdo
ocorrer num plano subjetivo, onde o narrador oculto discorre sobre
os pensamentos e as introspecções dos personagens.
Como em uma peça teatral, os cenários são praticamente fixos, com
poucas variações e os diálogos transmitem a tensão subjacente de uma
época onde a restrição à livre expressão do pensamento era uma
constante.
A documentação iconográfica existente para pesquisar cenários e
figurinos deste período é composta de primitivas fotos em preto e
branco. Esta sensação de “preto & branco”, de um maniqueísmo bruto,
procurou-se manter na transposição para a narrativa gráfica visual.
Os uniformes, tanto dos legalistas quanto dos revoltosos, foi
estilizado. Podem ser de qualquer guerra, de qualquer época.
Refletem apenas a uniformização do pensamento obediente aos comandos
dos ditadores do momento.
Na descrição da batalha vivida por Quaresma, mais do que representar
cenas de uma guerra, procurou-se muito mais transmitir - de maneira
subjetiva como é estilo de Lima Barreto - a sensação do homem
reduzido à sua selvageria animal e caindo em si diante da
fragilidade dos seus conceitos morais.
Personagem real inserido na obra de ficção, o Marechal Floriano
Peixoto é apresentado por Lima Barreto em sua dimensão humana, não
glorificada pela posteridade. Sua limitação intelectual, seu descaso
com as responsabilidades administrativas, até mesmo sua descrição
física, adquirem na pena do escritor um reflexo da sua perceptível
ojeriza pelo militar alçado ao cargo de supremo mandatário da nação.
Um retrato cáustico, onde se destaca no marechal, como sua principal
característica, a “tibieza de ânimo”.
O diálogo do marechal com Policarpo Quaresma é quase o ponto de
ruptura que antecede a percepção final deste último sobre a
insensatez da guerra e das motivações daqueles que ele considerava
como legítimos condutores dos destinos do país.
Durante toda a obra, os pensamentos do personagem principal falam
mais alto que seus diálogos com as pessoas do seu universo
particular. Seu monólogo final é um resumo das considerações que o
autor utilizou por várias páginas para descrevê-lo e descrever
também as razões que o motivaram. Tudo isso foi transposto para um
solilóquio onde o personagem questiona todas as razões da sua
existência.
Situando o ápice da obra durante a Revolta da Armada em 1893, Lima
Barreto nos traça um retrato em preto e branco daquela época
maniqueísta.
Foi com este enfoque em mente que a narrativa visual desta
transposição para os quadrinhos foi realizada, transformando os
atores em uma estilização do humano, em seu grotesco e em sua
dimensão imediata.
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